Ser Motard é uma filosofia de vida

Ser Motard é uma filosofia de vida

01/12/2019 Não Por Dr. Santiago Castillo Avila

Acessos: 117

Subi em uma moto pela primeira vez 54 anos. Também caí de uma moto, pela primeira vez aos 54 anos, minutos depois de ter subido. Felizmente nem a moto, nem eu sofreu grande coisa. Resultado de outras quedas a seguir, foram uma fractura do perónio, quebra do comando da embraiagem, do travão, raspei varias vezes a carnagem da mota junto a pele da minha perna. Felizmente nem a mota, nem eu nunca tivemos que internar …até agora. As marcas nas pernas são lembranças do que fui capaz.

Cada queda foi uma experiência na condução, mas também na vida. A minha autoconfiança melhorou muito quando finalmente consegui andar de mota. Em 2017 embarquei meu clube Motard,os Amigos da Picada, numa viagem até a província de Cabinda. Fomos por terra e chegamos a Cabinda pela fronteira do Yema, depois de atravessar varias cidades na RDC. Eu nunca tinha andado na picada uma moto de 1200cc.Alias, eu nunca tinha andado na picada. A viagem foi em Setembro, muita chuva e pouco asfalto.

No início da viagem, logo que entramos na picada, senti medo. Tinha medo de cair e ficar ferido, de estragar a moto, de complicar a viagem dos meus amigos, em fim de não conseguir chegar. Isso também acontece na vida, fazemos uma escolha, imaginamos as dificuldades pela frente, sentimos medo e desistimos. Isto é naturalmente humano. Não obstante o medo diminui quando decidimos avançar. Agir parece ser o melhor antídoto contra o temor. Pelo menos foi assim comigo.

Tenho no meu Facebook uma foto em que aparentemente estou a proteger-me do sol a mão. Na mais longe da verdade, estava a assinalar que era a quinta queda consecutiva. Depois dessa foto cai mais 3 vezes. Alguém ficou a gozar as minhas quedas, algo habitual no ambiente da picada, mas eu não estava preocupado. Meu receio não era cair, era não poder levantar-me. Cai 8 vezes e levantei-me 8 vezes, foi assim que cheguei a Cabinda, depois de muitas quedas.

O regresso não foi pêra doce, alias, foi pior que a ida e até pensei desistir. O caminho tinha ainda mais lama, chuva que não dava descanso, muita tensão na via. Num trecho difícil até para os carros, quando já estava a pensar entregar a moto para alguém, veio ate mim o presidente do Clube e diz-me:

– Vou levar a tua mota até a zona menos lama, mas você é que vai leva-la ate Luanda. Nem penses em desistir, porque vás arrepender-te toda uma vida-
O PR levou a minha mota, consegui descansar um bocado, e assimilei suas palavras. Desistir não era uma opção valida.

Li um artigo interessante sobre uma doutora que ajuda às pessoas mais velhas lidar a morte. Diz que quando perguntava aos mais velhos, acerca de qual foi o maior arrependimento das suas vidas, a maioria não sentia arrependimento pelas coisas que fizeram, e sim pelas coisas que deixaram de fazer. Parece que nas ultimas horas, a gente arrepende-se do que ficou por ser feito. Das coisas que deixamos para fazer algum dia e nunca foram feitas.

Aquilo em que acreditamos sermos capazes, que nos faria sentir bem e que nos enalteceria como seres humanos, não deve ser protelado. Mesmo que for difícil inicialmente, desistir será pior. Aprendi isso as dificuldades de cada viagem e o utilizo no meu dia-a-dia. Um dia, a caminho do Waku-Congo, fiz a seguinte reflexão. Se 54 anos fui capaz de subir numa mota de alta cilindrada e atravessar uma parte da RDC, o que não seria capaz de fazer? O que pode ser mais perigoso? O que pode ser mais difícil?

Hoje dia 1 de Maio faço 58 anos. Já ultrapassei a esperança de vida de aqui onde vivo. Diariamente pego na minha mota e desfruto a viagem até o meu novo emprego. Deixei de fazer o plano de outrem e decidi fazer o meu. Acredito que muitas quedas ainda tenho pela frente. Mas estou convicto de que se não ficar machucado, vou levantar, sacudir a poeira (ou a lama) e continuar o caminho. Mudei coisas importantes na minha vida. Contínuo fiel aos meus princípios. Sou responsável meus compromissos, familiares e sociais. Insisto em viver do meu jeito e também ser mais útil aos que me rodeiam. Para alguns sou um “cota” atrevido, que não reparou que está as portas da terceira idade. Para mim sou um Motard cheio de vida, na segunda juventude, um monte de coisas ainda por fazer.
Outrossim, estou a pensar na minha terceira juventude, essa que vem depois dos 70.