Saiba por que o sofrimento de quem teve polio ainda não acabou.

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Entre Janeiro e Junho de 1999, 1.100 casos suspeitos de poliomielite foram relatados em Angola. Os poliovírus tipos 3 e 1 foram isolados. A idade dos pacientes variou de 2 meses a 14 anos. Eu ainda lembro aquela crise com tristeza. Tinha um filho de 3 anos ao qual não deixava sair de casa. Muitos de estes antigos pacientes sofrem hoje a Síndrome Pós-Polio (SPP). Talvez alguns deles não sejam diagnosticados correctamente.

A Síndrome Dós-Pólio (SPP) é um distúrbio que acomete a indivíduos que sofreram poliomielite. Resulta que por volta dos 40 anos, pessoas que pelo menos 15 anos antes foram infectadas pelo vírus da poliomielite desenvolvem novamente sintomas da mesma. A principal característica nesta apresentação é a perda das funções musculares que já tinham sido estabilizadas.

O problema não é provocado pela reactivação do vírus, mas pelo desgaste proveniente da utilização excessiva dos neurónios motores próximos daqueles que foram destruídos pelo poliovírus. Tal como a bateria de um telemóvel a energia destes neurónios esgota-se.

A incidência e prevalência da SPP são desconhecidas no mundo. O distúrbio é caracterizado principalmente pelos seguintes sintomas e sinais:

– perda de força muscular,
– fadiga muscular e generalizada,
– dor muscular e articular,
– dificuldades respiratórias e de deglutição

A minha preocupação principal é que não existe um exame ou sinal que seja próprio da doença. Para a confirmação do diagnóstico é necessária a exclusão de outros diagnósticos diferencias que poderiam justificar a presença de sintomas encontrados na síndrome.Isto pode ser um repto para muitos médicos, que caracterizariam o processo como viral, tóxico ou ate proveniente de alguma outra doença degenerativa no SNC.

A situação é ainda mais desconfortante quando sabemos de que não existe tratamento específico para a SPP. A abordagem é sempre multidisciplinar e inclui:

– exercícios aeróbicos leves,
– alongamento,
– exercícios de resistência com pouca carga,
– hidroterapia e orientação nutricional,
– assim como o uso de órteses (bengalas, muletas, andadores, coletes, por exemplo), caso for necessário.

Estas não são boas noticias para quem já luta com as sequelas da infecção primaria, mas a verdade é que o sofrimento destas pessoas ainda não acabou.

Sobre Dr. Santiago Castillo Avila 57 artigos
Cirurgião Ortopedista. Especialista em Ortopedia Pediátrica CEO do ORTOCENTRO do Benfica Consultório CMA-Talatona. Tel: 935 556684 - 927 625 077 Luanda. Angola