A propósito das pernas arqueadas em crianças angolanas

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Pernas arqueadas nem sempre são algo anómalo

As pernas arqueadas  é dos motivos de visita mais frequentes das crianças à minha consulta. O  interessante é que poucas  apresentam algum problema na marcha, mesmo aquelas com as pernas muito curvadas. Em geral, a consulta é mais dirigida aos familiares, alarmados pelo futuro da criança e pela eventual necessidade de algum tratamento cirúrgico.

Nos primeiros dois anos de vida é normal a criança ter as pernas arqueadas.  A curvatura dos membros inferiores, reflecte a forma as paredes da bacia.

O grau da curvatura vária, aceita-se que o ângulo formado pelo fémur e a tíbia não deve ultrapassar a 20-25º. Na evolução de uma criança sem qualquer distúrbio subjacente, o aspecto “normal” dos membros inferiores só é visível a volta dos 7 anos de idade.

Em Angola não há estudos específicos acerca da evolução dos membros inferiores das crianças, mas a Nigéria tem alguns que podem servir de referência. Por exemplo,  o estudo de Omololu B. e colaboradores em mais de 2000 crianças entre um e dez anos de idade. Segundo os resultados, em crianças nigerianas, o ângulo entre a tíbia e o fémur -tibiofemoral- atinge o máximo a volta dos 2 anos de idade e o mínimo aos 5.

Depois dos 5 anos, aparece uma angulação no sentido contrario, isto é em valgo – os joelhos ficam angulados para dentro – que desaparece entre os sete e os nove anos de idade, embora as meninas podem ficar com um ligeiro desvio.

Mesmo com este prognostico favorável é importante que toda a criança, com as pernas arqueadas, tenha um acompanhamento médico inicial. Nem sempre trata-se de um processo benigno e a curvatura pode não desaparecer.

Em crianças de raça negra é mais frequente este desenlace, a deformidade por vezes persiste ou agrava-se. De facto, o principal repto para qualquer ortopedista, é definir quais terão uma correcção espontânea ou fisiológica, e  quais não.

Em geral, joelhos com curvas suaves, harmonicas e  bilaterais acostumam corrigir espontaneamente. O ângulo entre a epifise e a metáfise tibial proximal não deve estar muito fechado.

A criança com genu varo fisiológico, deve ter uma altura e peso acorde com sua idade e um trofismo muscular normal. Sempre que exista alguma anomalia visível ao respeito ou faltar algum dos pressupostos antes mencionados,  a criança deve ser submetida a estudos complementares de imagem e de laboratório.

Cirurgia correctora do Blount
Após osteotomia correctora e fixação com fios de aço

O raquitismo provoca  membros arqueados. Na raça negra é mais frequente por causa da abundante melanina na pele. Este pigmento  bloqueia a entrada dos raios ultravioletas do sol tão necessários na sínteses da Vitamina E, importantíssima na absorção do cálcio dos ossos. Em países subdesenvolvidos,  a causa é  o deficit nutricional do cálcio .

Algumas displasias – distúrbios de desenvolvimento – afectam um lado da placa de crescimento da tíbia ou do fémur provocando  assimetrias. A doença de Blount é a mais frequente destas displasias e frequentemente é necessário corrigir o arqueamento com cirurgia. A rápida progressão da curva, nestes casos, é sinal do processo anómalo. A obesidade infantil agrava qualquer arqueamento nas pernas, independentemente da etiologia.

No século passado eram recomendados sapatos ortopédicos para corrigir as pernas arqueadas. Esta demonstrado que não há sapatos capazes de endireitar os joelhos. A aparentemente correção feita pelos sapatos é na verdade espontânea,  trata-se  de uma correcção fisiológica.

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