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Embora não tão frequentemente como nos adultos, as crianças e adolescentes também sofrem dor no retropé. O retropé ou calcanhar é a zona constituída principalmente pelo osso calcâneo. Sendo este osso ainda imaturo no caso das crianças, os distúrbios que apresenta  são diferentes aos do calcanhar adulto..

Entre as causas mais frequentes de dor no calcanhar ou retropé imaturo encontram-se:
– A apofisite do calcâneo (Doença de Saver)
– A tendinite calcânea (Tendinite do Aquiles)
– Fractura do osso calcâneo ( traumática aguda ou por stress)
– Doenças do foro reumático ( Artrite reumatoide juvenil)

Doença de Saver
A doença de Saver é sem dúvidas a causa mais frequente de dor no calcanhar imaturo. Repare que nove em cada dez crianças com dor no retropé, têm uma doença de Saver. É interessante constatar que raramente este distúrbio é diagnosticado em nosso meio. O mais comum por cá é adjudicar, a dor no retropé da criança, a algum traumatismo “dasapercebido”. Não poucas vezes culpam-se às “ dores do crescimento”. Embora a doença de Saver seja frequente na fase de crescimento acelerado do esqueleto imaturo, a sua origem está muito bem definida.

A dor na doença de Saver aparece principalmente no início da marcha, depois de um período de repouso. Também nos dias de intensa actividade da criança, principalmente se houve exercícios muito repetitivos ou de algum impacto. A dor costuma ser intermitente. Aparece durante um tempo e desaparece espontaneamente. De facto é, quando não é assim é que surge a preocupação dos familiares.

O diagnóstico pode ser feito a partir dum bom exame físico. A percussão suave na zona em que o Aquiles se incerta no calcâneo exacerba a dor. A criança tem desconforto (incapacidade) para andar na ponta dos pés. Por vezes se observa um aumento de volume na zona. Eu costumo confirmar o distúrbio com ecografia, mas a radiografia é o exame complementar mais utilizado. As radiografias mostram um aumento da densidade óssea na apófise calcânea e sinais de edema nas partes moles adjacentes. Isto último visualiza-se melhor com o ecógrafo e não poucas vezes é o único sinal.

O tratamento, na generalidade, é sem cirurgia. Recomenda-se o repouso relativo (diminuir a actividade física) da criança, aplicar gelo na zona sensível do calcanhar e tomar algum anti-inflamatório/analgesico. Se a situação não melhorar, é prudente colocar uma bota gessada, perna-tornozelo-pé, durante 3 semanas. Depois devem ser feitas algumas sessões de fisioterapia e reabilitação. Alongar frequentemente os músculos da panturrilha ajuda a reduzir o estresse no calcanhar.

O desconforto provocado pela doença de Saver desaparece definitivamente com maturidade óssea. Assim que se fusiona a apófise calcânea, a dor desaparece.

Tendinite do Tendão de Aquiles
Esta é a segunda causa mais comum de dor no calcanhar em crianças. Ocorre quando este tendão se inflama. O aumento repentino da intensidade nas actividades da criança provoca inflamação do tendão de Aquiles Isto é frequente  ao iniciar um novo desporto. O tratamento inclui repouso e a elevação do pé, bem como gelo para aliviar o inchaço. Também pode ser recomendado, em casos refractários, a imobilização do tornozelo e o pé, durante um tempo.

Fractura do calcanhar
Fraturas do calcanhar podem ocorrer devido a traumatismo agudo ou por estresse repetitivo. Por vezes separa-se a apofise do resto do osso, fica o fragmento colado ao extremo inferior do tendao de Aquiles. Isto é mais provavel em crianças que praticam desporto de alto impacto. Se o afastamento for importante o tratamento é cirurgico. Na maioria dos casos será suficiente a imobilização do tornozelo e do pé por 3 semanas e analgesicos para controlar a dor.

Artrite Idiopática Juvenil
A Artrite Idiopática Juvenil (AIJ) causa dor nas articulações, inflamação nas mãos, pulsos, cotovelos, joelhos e pés. É o tipo mais comum de artrite em crianças e adolescentes.. Era frequente chamar a AIJ como “artrite reumatoide juvenil”. Certamente o termo não era muito preciso, porque a AIJ não é a versão “infantil” da Artrite Reumatóide do adulto. Crianças com este distúrbio generalizado devem ser acompanhadas pelo reumatologista pediátrico, mais do que por um ortopedista.

Resumindo, a dor no retropé das crianças é frequente, e não deve ser menosprezada. Embora os distúrbios apresentados sejam os mais frequentes, não são os únicos. A persistência da dor deve ser estudada de forma exaustiva, a procura de algum processo infeccioso ou neoplásico.