A ortopedia em Angola. Realidade e desafios

Hits: 344

A Sinistralidade rodoviária foi o tema principal do primeiro congresso da SAOT, a Sociedade Angolana de Ortopedia e Traumatologia, tudo indica que será o tema principal em muitos outros. Infelizmente, continuamos a enfrentar, agora com mais dificuldades, a mesma epidemia de trauma.

Protelamos muitos problemas ortopédicos graves da população, simplesmente, porque estamos limitados ao tratamento principalmente, das víctimas dos acidentes. O nosso  passivo de doentes com deformidades, de infecções recorrentes e de tumores sem tratar é cada vez maior.

A situação actual em quase todas as instituições de saúde, publicas ou privadas pode ser resumida assim:

  • A epidemia de trauma desborda a capacidade de atendimento dos ortopedistas.
  • Mais do 80% da actividade cirúrgica está dirigida ao tratamento das fracturas e suas sequelas. Isto consume recursos, tempo e vocação profissional.
  • Os acidentados lotam practicamente todas as camas disponíveis. Os serviços ficam sem espaço para internar doentes com outros distúrbios músculo-esqueléticos não traumáticos.

Não conseguimos estar presentes em todas as regiões do país. Em algumas capitais de província os serviços de ortopedia são precários ou não existem. Os pacientes do interior do país, deslocam-se à Luanda para tratar problemas músculo-esqueléticos diversos. Por vezes, tem um ortopedista onde radicam, mas sem recursos para os tratar como deve ser.

A redução do volume dos acidentes de viação está fora do nosso alcance. Aos ortopedistas cabe principalmente, ser eficientes no tratamento das victimas. Ser eficientes como profissionais é abordar correctamente os pacientes, é tratar as lesões sem demoras e com resultados satisfatórios.

Honestamente, ainda estamos muito distantes desse desiderato. O paradigma da assistência medica no país não nos ajuda e nos também temos que mudar a nossa filosofia de trabalho
O principal objectivo da SAOT e do Colégio Medico da Ortopedia, nos próximos anos, tem que ser atingir a eficiência no atendimento dos pacientes. Isto não será uma tarefa fácil. Um bom começo seria para melhorar o atendimento dos pacientes com trauma, acompanhar as “Diretrizes para o desenvolvimento de programas de qualidade no atendimento ao trauma”, um documento elaborado pela OMS que responde a este desafio.

Algumas dessas directrizes já foram implementadas em vários países africanos com resultados satisfatórios. Isto demostra sua viabilidade, mesmo em nosso contexto. Então porque não seguir o trilho? Por que não imitar o que de bom está ser feito na especialidade?

A reorganização dos serviços de ortopedia é prioritária. Não é possível mudar os resultados se continuamos a fazer igual. Não é coerente, nem factível, manter o modelo actual. Não é sustentável que em todos os hospitais pretendam, por exemplo, fazer artroplastias, realizar cirurgias de reconstrução osteoarticular ou de osteossínteses complexas.

Por muita boa vontade que tenham os médicos, a especificidade e complexidade desses procedimentos, aconselha que sejam realizados em serviços comprovadamente qualificados para tal e  com os recursos necessários. É para eles deveram ser encaminhados os pacientes. Isto contribui para o treino e o conhecimento mais específico nos dos distúrbios esqueléticos.

Hospitais sem UTI, sem pós-operatório bem estruturado, sem fisioterapia condigna, não devem realizar cirurgias ortopédicas complexas. Isto é garantia para catástrofes, que só contribuem para a má opinião dos utentes acerca do nosso trabalho.

Não existe uma rede para atender o trauma. Nem sequer há uma única unidade de politrauma no país. Como aprender a tratar correctamente aos politraumatizados, se nem sequer existe uma estructura específica para eles?

Mesmo em países com menos recursos que Angola, alguma coisa tem sido feita nessa direcção. Embora existam dúvidas sobre qual o melhor modelo de organização dos sistemas de urgência, não se contesta a necessidade desta organização. Cada modelo tem suas particularidades, mas todos apresentam em geral, bons resultados.

Os centros de politrauma absorvem recursos, matérias e humanos, que conseguem oferecer melhor atendimento aos pacientes com lesos graves. Além da assistência especializada, os politrauma são centros de treinamento.

Os profissionais neles treinados podem ser o núcleo de novos serviços de ortopedia a serem criados por todo o país. Por outro lado, é mais sustentável direccionar os limitados recursos existentes para centros especializados.

Quando não há condições melhor não operar.
“Primum non nocere”

A abordagem dos pacientes com problemas músculo-esqueléticos deve respeitar normas definidas pelo Colégio da especialidade. Tendo em conta a diversidade de especialistas que laboram no serviço nacional da saúde, é recomendável instituir algumas diretrizes gerais na abordagem. Pelo menos, nos distúrbios mais frequentes.

As conductas devem respeitar os princípios universais da ortopedia, da técnica cirúrgica, dos procedimentos, mas também, a especificidade social, cultural e familiar das diferentes regiões. A ortopedia angolana necessita melhorar, nos gostaríamos que assim fosse, o povo exige que assim seja.

CROSSFIT: Um “serial killer” dos joelhos no adulto

Hits: 52

Este post é para recomendar o meu video no Canal da Ortopedia Fácil acerca das lesões que pode provocar o CROSSFIT.

Por que acho que este vídeo é interessante?

-Primeiro porque esclarece alguns aspectos desta modalidade que repercutem no bom funcionamento do SOMA (Sistema Osteo-Mio-Articular)

– Segundo porque estabelece alguns parâmetros que podem evitar ter lesões desnecessárias, (tó a falar a toa, será que existem lesões “necessárias”?)🤔

– E terceiro porque fiz este vídeo com tudo amor e gostaria ter tua opinião, esclarecer tuas duvidas, falar do assunto, a ideia principal é essa, a final a Internet não é só para fofocas…you know?.😉

Então clica aqui e acompanha o vídeo até o fim..depois deixa um comentário no canal..please

 

INFECÇÕES MATAM MAIS JOVENS QUE OS ACCIDENTES

Hits: 105

São as infecções e não os acidentes de carro as que mais vidas jovens ceifam em África. Segundo um novo relatório da OMS, mais de 3000 adolescentes morrem todos os dias. Isto significa mais de 1,2 milhão de mortes por ano, de causas facilmente evitáveis.

Em 2017, mais de dois terços dessas mortes ocorreram em países de baixa e média renda. Principalmente localizados em África e no Sudeste Asiático. Lesões secundárias a acidentes de trânsito, infecções respiratórias e suicídios, são as causas mais frequentes.

A maioria dos jovens mortos em acidentes rodoviários são usuários vulneráveis da estrada, como pedestres, ciclistas ou motociclistas. Não entanto, há diferenças entre as regiões. Em 2016, as lesões na estrada estavam entre as principais causas de morte entre os 10-19 anos, resultando em aproximadamente 115 mil mortes. O grupo com idades entre 15-19 anos sofreram o maior fardo.

Mas nem por isso são os acidentes a principal causa de morte entre os jovens. Se bem é certo que o surto de sinistralidade rodoviária tem ceifado a vida de muitos, na verdade são as doenças infecciosas as que mais mortes provocam.

Considerando apenas os países de baixa e média renda, em África por exemplo, as doenças transmissíveis como o HIV / SIDA, as infecções respiratórias agudas ou cronicas, a meningite e as doenças diarreicas agudas, provocam mais mortes entre os adolescentes do que as lesões por acidentes rodoviários.

“Os adolescentes estão quase totalmente ausentes dos planos nacionais de saúde há décadas”, diz Flavia Bustreo, Subdirectora-Geral da OMS.

A maioria dessas mortes podem ser evitadas com bons serviços de saúde, educação e apoio social. Em muitos casos, adolescentes que sofrem distúrbios de saúde mental, uso de substâncias psicotrópicas ou má nutrição não tem serviços de prevenção e assistência, seja porque os serviços não existem, ou porque desconhecem sua existência.

A MEDICINA DEFENSIVA ELEVA CUSTOS NO ATENDIMENTO ORTOPEDICO

Hits: 204

Os resultados deste estudo mostram que os médicos “estão claramente preocupados com questões de negligência, e estão ajustando seus procedimentos com base nesse medo”, disse Manish K. Sethi, MD, principal autor do estudo e co-diretor do Vanderbilt Orthopaedic Instituto Centro de Políticas de Saúde dos EUA.

Mais do 24 por cento dos testes foram solicitados por razões defensivas: 19 por cento dos testes de radiografia, 26 por cento dos exames de tomografia computadorizada, 31 por cento das imagens de RM e 44 por cento de ultra-sonografias. Os cirurgiões ortopédicos participantes também reconheceram que a medicina defensiva foi a motivação por trás de 35% dos encaminhamentos de especialistas, 23% dos exames laboratoriais e 18% das biópsias. As internações hospitalares defensivas tiveram uma média de 7% por mês.

Usando a média nacional de informações de pagamento do Medicare dos dados de reembolso de código da Current Procedural Terminology (CPT) de 2011, o custo do medicamento defensivo por cirurgião ortopédico foi de aproximadamente US $ 8.500 por mês ou US $ 100.000 por ano, representando 24% dos gastos anuais de um médico. Dada a estatística do Departamento do Trabalho dos EUA de 20.400 cirurgiões ortopédicos em atividade nos EUA, os pesquisadores estimam o custo nacional anual de medicina defensiva para a especialidade de cirurgia ortopédica em US $ 173 milhões por mês ou US $ 2 bilhões por ano.

“A medicina defensiva eleva o custo do atendimento ao paciente e limita o acesso do paciente aos cuidados especiais, nenhum dos quais é do interesse de nossos pacientes que merecem o melhor e o menor custo possível. Infelizmente, o clima legal atual força os médicos a ordenar esses cuidados. testar e praticar medicina defensiva “, disse Douglas W. Lundy, MD, FACS, presidente do Comitê de Responsabilidade Médica da AAOS(Sociedade de Cirurgia Ortopedia de Norteamerica).

AS VARIAÇÕES NO DESENVOLVIMENTO ESQUELETICO DAS CRIANÇAS

Hits: 109

No CMA ( http://www.cmatalatona.com ) a primeira consulta de ortopedia em crianças é gratuita. Isto não é porque somos uma ONG ou coisa parecida. Nada disso.

Resulta que grande parte das crianças que vem à consulta, não tem realmente um disturbio ortopedico. Tem sim, uma variação normal do seu desenvolvimento. De facto elas não precisam qualquer tratamento. Os familiares são bem esclarecidos (nada de sapatos, aparelhos, gessos, etc). Depois acompanho as crianças inicialmente cada 6 meses, depois uma vez por ano.

Se o miudo(a) vem com o pai ou a mãe, frequentemente entrego este panfleto. Entre nos, levar um documento do médico para casa, “dá muito jeito na hora de falar com a sogra sobre a consulta do miudo”

Panfleto informativo

Panfleto informativo (Pode ser copiado e distribuido a vontade  😉

A MEDICINA PREVENTIVA DE LITÍGIOS

Hits: 67

O exercício da medicina perdeu parte da mística, da aura, até do seu sentido humanitário. Nas clínicas agora tem livro de reclamações, igual às lojas de comércio. A relação médico-paciente passou a ser de utente-prestador de serviço.

O utente é protegido pelo Código de Defesa do Consumidor. Pode demandar o prestador sempre que se considerar mal tratado ou insatisfeito com o serviço. É o que fazem frequentemente.

Tem advogados, especializados em litígios contra médicos na porta dos hospitais. O paciente (utente?) só paga se ganhar a causa. Seja pela frustração derivada do problema de saúde ou pelo ganho secundário, o facto é que levar médicos a tribunal está na moda. Pelo visto parece ser um negócio rentável.

A medicina não é uma ciência exacta, os médicos são falíveis. O erro existe e sempre vai existir. Só não erra quem não lida com doentes. O problema é quando qualquer erro, não interessa a natureza, é visto como incompetência, imprudência ou ainda pior, como negligência. Mesmo se o final desfavorável do distúrbio fazia parte da sua evolução natural. O médico em julgamento tem sempre que demonstrar que agiu correctamente. Ainda que não seja condenado,sai do tribunal psicologicamente devastado.

Após essa luta será um profissional diferente. Deixa de ser cuidadoso, agora é temeroso. Teme voltar a passar por isso. Adopta condutas, procedimentos e tratamentos que não deixem dúvidas sobre seu desempenho. Não arrisca, vai pelo seguro, acontece que no seguro nem sempre está a cura do paciente.

Mas é obrigação do médico, curar o paciente? Moralmente sim, legalmente não. O médico presta um serviço de meios, não de fim. O seu dever é oferecer o melhor serviço possível em função da sua competência técnica, conhecimentos e recursos disponíveis. Os resultados são outra história. Podem ser positivos ou negativos. Visto desde outra óptica, o médico garante o melhor tratamento ao seu alcance, não a cura.

Foi nos Estados Unidos, lá pelos anos 90, que ganhou força a Medicina Defensiva. Foi uma resposta ao elevado número de processos judiciais contra médicos. Resumidamente são condutas e estratégias diagnósticas/terapêuticas com objectivo de prevenir demandas judiciais. A Medicina Defensiva até tem um manual. É a arte de como fazer medicina sem ir ao tribunal.

Há bem pouco tempo recebi um jovem acompanhado pelo pai. Tinha sido assistido antes por um colega porque tinha dor lombar. O pai do jovem, um jurista, queria processar o meu colega por não diagnosticar uma suposta escoliose no seu filho. Segundo o pai, ele devia ter solicitado uma radiografia da coluna ao seu filho.

Dificilmente eu recomendaria uma radiografia a um jovem de 20 anos, com dor lombar depois de jogar futebol no dia anterior. Sem qualquer sinal de alarme, sem antecedente de trauma importante e só com um ligeiro espasmo dos músculos para-vertebrais. Pensaria num entorse lombar (que de facto existia, alem da “escoliose”) e recomendaria analgésicos e repouso. Em uma semana devia passar, só que antes disso o paciente foi a outro médico.

Uma escoliose tem que ser muito deformante para ser dolorosa. A curva escoliótica na radiografia do jovem tinha menos de 10º. Nem sequer podia ser considerada uma escoliose. Mas outro médico diz-lhe que a causa da dor era o desvio na coluna. Consegui convencer ao familiar do paciente de que a conduta inicial tinha sido correcta. Mas fiquei com a experiência. Talvez por isso agora peço mais radiografias da coluna do que antes.

Há quem diga que a Medicina Defensiva é benéfica para o paciente. Que aumenta a segurança, que diminui as probabilidades de erro porque o médico é mais cuidadoso. Talvez, mas estatisticamente não parece ser assim. Os litígios legais continuam a subir tal como os custos na saúde. O preço dos actos médicos dispararam por causa dos seguros de responsabilidade civil. Todos querem estar protegidos caso venha uma demanda civil. Os custos disso tudo são colocados na factura do paciente.

Outro efeito negativo é a utilização desnecessária de antibióticos que aumenta a resistência das bactérias. Quantas vezes são recomendados por uma simples gripe. Qualquer médico sabe que a gripe é viral, mas como também pode ser o início de uma pneumonia, então recomenda antibióticos “preventivos”. Assim acontece até com feridas ou escoriações superficiais que com curativos simples seriam perfeitamente resolvidas.

Conheço o caso de um colega que foi ao tribunal acusado de negligência. Tratava-se de um paciente com traumatismo craniano por queda em casa. Tinha 50 anos, escorregou e bateu com a cabeça no chão. Não perdeu o conhecimento. Durante o exame físico estava bem orientado e sem qualquer sinal que indicasse algum compromisso neurológico. O colega recomendou uma radiografia convencional e deu alta após 6 horas em observação.

No dia seguinte o paciente regressou com cefaleia intensa. Foi feita uma TAC que detectou um pequeno coágulo no cérebro. Pelo tamanho foi decidido não removê-lo e aguardar. Outro exame feito mais tarde confirmou que não tinha sangramento activo. Após uma semana teve alta sem qualquer sequela. O paciente foi ao tribunal porque, segundo ele e o seu advogado, o médico devia ter pedido uma tomografia na urgência. Durante o julgamento o juiz perguntou a um perito se uma TAC inicial, podia ter detectado o problema. Ele respondeu – detectado talvez, evitado nem por isso.

Agora no centro onde trabalha esse médico, todos os pacientes com TCE (Trauma Crânio-Cefálico), são submetidos a TAC. Não interessa a magnitude do trauma, nem o resultado do exame físico inicial, vai fazer TAC. Só que esse exame é caro e deve ser autorizado previamente pela seguradora. O resultado é que tem gente com um simples “galo” na cabeça a espera que o seguro autorize a TAC.

Outro efeito perverso da Medicina Defensiva é a rejeição, directa ou indirecta, dos casos ou procedimentos complicados. Na Pensilvânia, Estados Unidos, foram entrevistados 800 médicos para determinar a prevalência das condutas defensivas no seu dia-a-dia. O estudo mostrou que 92% recomendavam testes complementares ou tratamentos só para proteger-se. Além disso, 42% deles tinha eliminado procedimentos de alto risco ou evitado pacientes com complicações.

Acredite, a Medicina Defensiva protege os médicos medíocres e desencoraja os mais capazes.

Em Angola embora o número de litígios contra médicos ainda ser baixo, já se assiste a uma tendência crescente dos mesmos. Não é intenção deste texto questionar o direito do paciente a exigir um melhor atendimento e a culpabilizar os negligentes. Cada uma das partes neste conflito entre o doente (utente) e o médico (prestador de serviço), tem razões de peso para a sua actuação. O que é evidente é que nenhuma das partes fica a ganhar neste paradigma de mútua desconfiança.